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Nos últimos meses, tenho conversado bastante sobre o avanço da tecnologia no Direito, especialmente sobre o impacto da Inteligência Artificial Generativa. Em três ocasiões distintas, recebi a pergunta: “O que vai sobrar depois que a IA ganhar espaço e estiver integrada às práticas jurídicas?” Depois de ouvir isso pela terceira vez, comecei a refletir seriamente sobre isso. A preocupação de ser substituído pela tecnologia não é novidade entre os advogados. Eu gostaria de começar dizendo que não acredito nesse cenário apocalíptico. Prefiro encarar a tecnologia como uma facilitadora que elimina tarefas operacionais e de baixo valor agregado, e não como um substituto para o raciocínio humano. No entanto, a questão mais importante talvez não seja o “desemprego tecnológico”, mas como podemos aproveitar as novas oportunidades que ela traz.

Imagine, só por um momento, se conseguíssemos reduzir a semana de trabalho para quatro dias (sim, essa ideia que tem circulado e que, entre uma piada e outra, pode ter seu valor). Ser eficiente significa fazer em seis horas o que normalmente levaria oito, não adicionar mais seis horas ao seu dia. Isso definitivamente não é eficiência. Você já pensou sobre isso?

O verdadeiro valor dos advogados não está na capacidade de realizar tarefas repetitivas e mecânicas, mas na interpretação, no julgamento e na aplicação estratégica das leis. À medida que a tecnologia toma para si as funções operacionais e mecânicas do cotidiano, o que realmente sobra é a essência do “ser humano” – a capacidade de pensar, sentir, empatizar e julgar, atributos profundamente humanos e difíceis de serem replicados por máquinas.

Portanto, enquanto nos preparamos para essa onda de mudanças, precisamos repensar o papel do advogado não só como executores de tarefas, mas como pensadores críticos, estrategistas e, acima de tudo, como seres humanos capazes de navegar em um mundo cada vez mais dinâmico. O futuro do Direito não envolve a substituição do profissional pela máquina, mas a evolução do advogado para um papel mais consultivo, interpretativo e decisório, onde a inteligência emocional e a capacidade de criar conexões humanas são tão importantes quanto a habilidade técnica.

Os profissionais enfrentam o desafio e a oportunidade de moldar um futuro em que a tecnologia amplie suas capacidades, em vez de substituí-las. Em vez de temer a mudança, devem abraçá-la como uma chance para redescobrir o valor intrínseco do trabalho jurídico, reinventando o papel do advogado em uma era definida pela inovação contínua e pelas possibilidades quase ilimitadas que a tecnologia oferece.

Qual será o futuro do advogado diante dessas transformações? A próxima geração de advogados, os chamados “Gen Z”, é frequentemente vista como crítica das práticas estabelecidas. Mas, talvez eles estejam certos em seus questionamentos. É possível que por anos tenhamos aceitado certos padrões e condições de trabalho sem questionar sua eficácia. Com a chegada do home office na advocacia, evidenciada durante a pandemia do COVID-19, vimos que é possível equilibrar melhor a vida pessoal com as demandas profissionais, desafiando o modelo tradicional de trabalho incessante no escritório. E não menos importante, que a transformação digital é muito mais possível, do que imaginávamos.

Ao longo dos meus mais de 14 anos trabalhando em diferentes escritórios de advocacia, observei muitos profissionais com habilidades técnicas excepcionais que, no entanto, não se destacavam igualmente nos aspectos humanos, como a comunicação eficaz, empatia e liderança — os “soft skills”. Esse desequilíbrio entre conhecimento técnico e habilidades interpessoais muitas vezes resultava em interações que poderiam ser percebidas como “rudes” ou “desengajadas”. Essa lacuna nas competências é particularmente preocupante considerando que a formação acadêmica do profissional do Direito ainda é predominantemente focada em aspectos técnicos, deixando uma lacuna significativa no desenvolvimento de habilidades essenciais para a gestão de relações humanas e uma liderança eficaz.

Infelizmente, as instituições de ensino superior que formam os futuros profissionais do Direito ainda não se adaptaram completamente para atender a essa necessidade. A grade curricular permanece ancorada numa realidade que, em alguns casos, não condiz mais com as exigências atuais. Essa desconexão entre o ensino e as demandas do mundo real contribui para a perpetuação de uma geração de advogados que, embora tecnicamente adeptos, podem se encontrar inadequados nas dinâmicas interativas do ambiente profissional nos dias de hoje.

O desafio para as futuras gerações de advogados será não apenas dominar a complexidade jurídica, mas também desenvolver soft skills. Isso envolve aprender a se comunicar de maneira eficaz, entender os nuances emocionais e sociais de interações com clientes e colegas, e liderar com empatia. A capacidade de um advogado de se conectar em um nível humano pode ser tão crucial quanto sua habilidade técnica, especialmente em um mundo onde a empatia e o entendimento mútuo são cada vez mais valorizados.

Neste contexto, os chamados “reclamões” da Geração Z podem estar apontando para uma evolução necessária na profissão. Ao questionar o status quo, eles estão, talvez, sinalizando para uma nova era na advocacia, que valoriza o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e reconhece a importância das habilidades humanas no exercício da profissão. Reconhecendo essas mudanças, a advocacia pode se reinventar como uma profissão mais humana, responsiva e adaptada às necessidades atuais da sociedade.

A inteligência artificial generativa está revolucionando a maneira como trabalhamos e interagimos com o mundo ao nosso redor. Essa tecnologia já é capaz de realizar uma série de atividades, ampliando exponencialmente o acesso ao conhecimento e à informação. Você simplesmente precisa dizer o que deseja, e ela providencia, executando tarefas com uma eficiência surpreendente. Como um profissional com origem na tecnologia, me surpreendo a cada interação com ela, o que me leva a reflexões sobre minha própria trajetória profissional e sobre o verdadeiro significado de ser humano em uma era dominada pela tecnologia.

Como posso me tornar “mais humano” em meio ao avanço tecnológico? Esta pergunta ecoa na minha mente à medida que contemplo o futuro do Direito e das relações pessoais. Isso se torna ainda mais desafiador, considerando que muitas vezes sou eu quem desenvolve e impulsiona essa inovação. No entanto, no final das contas, o que realmente importa é nossa capacidade de se conectar com outras pessoas, de entender e ser entendido. Como posso aprimorar minha habilidade de me comunicar de maneira mais eficaz? Como posso desenvolver uma empatia mais profunda que me permita realmente sentir o que os outros estão experienciando? Como posso aprender a respeitar e valorizar perspectivas que diferem das minhas e cultivar um pensamento crítico que me desafie a crescer?

Estas são questões cruciais não apenas para mim, mas para todos nós que vivemos neste momento de transformação. E você, quais são as competências e habilidades que você está desenvolvendo ou precisa desenvolver? Como você se define fora do ambiente de trabalho? No nosso dia a dia, frequentemente esquecemos de refletir sobre quem somos além das nossas profissões e das tarefas que executamos. Entretanto, é essencial que dediquemos tempo para considerar nossa identidade dentro e fora do escritório.

Será que você está cultivando habilidades que enriquecem sua vida pessoal e melhoram suas interações com outros? Está investindo tempo em aprender a ouvir ativamente, em entender as emoções alheias e em construir relações mais significativas? Estas habilidades são fundamentais não apenas para o sucesso profissional, mas também para uma vida mais feliz. Neste contexto de mudança constante impulsionada pela tecnologia, é importante que mantenhamos o foco em desenvolver essas habilidades interpessoais, para garantir que, enquanto o mundo ao nosso redor se transforma, continuemos a evoluir como indivíduos, verdadeiramente conectados com a “humanidade” que nos define.

Estamos enfrentando um momento decisivo na história da advocacia, um verdadeiro divisor de águas que desafia cada um de nós – advogados e não advogados – a repensar nosso papel e nossa função. A tecnologia está remodelando o jurídico de maneiras que nunca imaginamos antes, forçando os advogados a serem mais do que meros executores de tarefas. Ela os impulsiona em direção à inovação, exigindo que se tornem verdadeiros pensadores críticos e inovadores proativos. O desafio que se apresenta a nós não é simplesmente se adaptar às mudanças, mas liderar essa transformação de maneira que beneficie a todos, impactando não apenas no plano econômico, mas também enriquecendo nossa essência humana.

A questão central não é mais se a inteligência artificial encontrará seu espaço no Direito; essa já é uma realidade consolidada. A verdadeira pergunta que devemos fazer é: como utilizaremos essa poderosa ferramenta para construir um futuro em que tanto a eficiência quanto os nossos valores sejam igualmente valorizados? Não podemos permitir que o medo do desconhecido nos paralise ou atrapalhe nosso progresso. Em vez disso, devemos abraçar as novas possibilidades com a curiosidade de quem está sempre aprendendo e com a sabedoria dos que conhecem profundamente sua profissão.

Este é, sem dúvida, o momento de definir o que significa ser um advogado no século XXI. Os advogados devem se posicionar como os arquitetos deste novo mundo. Isso exige uma mudança de mentalidade e uma disposição para inovar e pensar fora da caixa. Se conseguir fazer isso, não terão apenas sobrevivido à revolução da inteligência artificial; terão prosperado, utilizando-a como uma alavanca para melhorar prática jurídica, tornando o trabalho mais significativo e, principalmente, para servir melhor à sociedade.

Portanto, convido você a refletir sobre como contribuir para essa transformação. Se pergunte como usar as novas tecnologias para ampliar o acesso à justiça e melhorar a qualidade do serviço jurídico oferecido. Este é um chamado para que todos nós, assumamos um papel ativo na modelagem do futuro e no impacto que podemos ter no mundo ao nosso redor.

Afinal, ser um advogado nos dias de hoje, transcende a excelência técnica; é também sobre entender de pessoas, da sociedade e de como a tecnologia pode otimizar o cotidiano da advocacia, sempre visando o melhor atendimento aos clientes e à sociedade. Vamos, juntos, moldar um futuro que honre tanto a história que trouxe você até aqui quanto a aspiração pela inovação e progresso humano. Porque, quando as cortinas se fecham, o que importa é o quão “humano” você foi.

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