“Virou moda” alegar que o mundo atual é diferente, é disruptivo, e que o que antes era verdade já não é, de maneira que todos estejam ficando obsoletos e estão sendo substituídos, pelos mais jovens e pelas “máquinas”.
Trazemos aqui alguns pontos e provocações, e convidamos os leitores a uma reflexão, bem como a uma análise das suas próprias realidades, de forma a com isso ajudarmos a “corrigirem rotas”, buscarem conhecimento e novas competências, e, por vezes, empresas e negócios que melhor se adequem às suas características e momentos.
Há vários anos surgem teorias “apocalípticas” que afirmam prever o “fim dos advogados”, e com isso a perda de relevância dos departamentos jurídicos nas organizações, geralmente com base em evoluções tecnológicas como a automação de várias tarefas, softwares jurídicos de busca/pesquisa, de gestão e de produção de documentos, automações em geral, Inteligência Artificial, e robôs, dentre outros.
A proposta, da forma como vemos, é, na verdade, distinguir a advocacia mais antiga e tradicional (também muito mais burocrática, e quase nada estratégica e corporativa) e a contemporânea.
Temos defendido que esse alardeado “fim da advocacia” tem ao menos 2 (dois) aspectos e enfoques, uma vez que (de um lado) tarefas e funções “meramente” burocráticas e repetitivas, de fato são muito mais rápidas e baratas se forem automatizadas (e, por vezes, podem ser até “melhor” desempenhadas graças à padronização), mas (do outro lado) esse movimento, e até a própria evolução do universo jurídico corporativo, deveria, em tese, ajudar a advocacia mais estratégica, especializada e “não auto matizável”. Ou seja, defendemos que a advocacia “básica, repetitiva, burocrática e padronizável realmente tende a ser substituída “pela tecnologia, pelas máquinas, pelos robôs e pelos algoritmos”, mas a advocacia estratégica deveria se fortalecer (e fazer o que as “máquinas” não fazem).
O tema voltou à pauta nos últimos anos por um conjunto de fatores como a evolução e a disseminação da Inteligência Artificial, a frenética busca pela “automatização plena”, o aumento da pressão por redução de custos nas empresas, e os drásticos cortes de recursos em geral, pessoas, orçamento, autonomia e senioridade nas organizações; que vem demonstrando uma preocupante perda de relevância e prestigio nas empresas que estão seguindo esse “caminho” (que estão fechando, reduzindo drasticamente, ou “rebaixando” muito no organograma).
O que pareceu a muitos ser um “caminho sem volta” e que gerou muitos casos de “desmonte” de departamentos jurídicos, com desligamento de colegas mais seniores, experientes e bem-preparados (que, nesses casos, foram considerados “seniores de mais” e sofreram com o crescente etarismo corporativo, “caros”, não subordinados a executivos que não entenderam a importância e o papel dos executivos jurídicos estratégicos, ou que foram envolvidos em cortes de orçamento sem critério e massificados), parece estar sendo “rediscutido”.
Vivemos “tempos” tão desafiadores, complexos e “diferentes”, mundial e corporativamente, sem contar todas as peculiaridades brasileiras e de países em desenvolvimento, que em quase todos os setores e segmentos de mercado as matrizes de risco estão precisando ser revisitadas, rediscutidas e ampliadas, o que requer executivos cada vez mais estratégicos, inovadores, criativos, preparados, experientes e alinhados com as demandas atuais.
Essa “nova realidade”, que (I) internacionalmente vai do retorno às guerras de conquista (por territórios), os conflitos regionais (tradicionais/históricos e religiosos, ou não), a redefinição dos centros de poder, a criação e o desmonte de blocos econômicos e de influência, Crises profundas em agentes como a ONU, a OMC, a OTAN e outros, as “ondas” ideológicas, os “tarifaços”, as ameaças de invasões, os boicotes/bloqueios (econômicos e políticos), as pressões de todo tipo, os cenários que mudam semanalmente, as restrições de fornecimento, os gargalos de infraestrutura, as profundas alterações e as tensões geopolíticas e geoeconômicas, a rediscussão de todo um novo conceito de organizações multilaterais e da globalização, a busca por mais tecnologia, chips e terras raras, dentre vários outros pontos, os efeitos e os impactos da chamada “crise climática”, além de (II) questões internas, como o absoluto descontrole das contas públicas, o preocupante déficit fiscal, o altíssimo custo brasil, “fantasmas permanentes” ligados ao câmbio, à taxa de juros e à inflação, sem contar a reforma tributária, a crise da infraestrutura e os “anos eleitorais” e a insegurança jurídica e institucional, dentre outros, tornam o cenário muitíssimo muito mais desafiador.
Negócios, segmentos, setores, produtos, serviços, profissões, empresas que por muito tempo “reinaram” estão sendo de fato chamados a uma nova realidade, que muda cada vez mais rapidamente, e cobra de todos nós adaptação e evolução, ou a busca por outras oportunidades. E temos acompanhado que diversos “negócios” estão de fato “morrendo” e sendo substituídos por outros.
Perguntas de “bilhões de dólares” sobre estratégias e decisões corporativas surgem cada vez mais rapidamente, e temos que nos preparar para cenários cada vez mais dinâmicos, complexos e desafiadores.
A maioria desses itens acima (que são apenas exemplos) são tão impactantes, e muitos deles são tão inesperados, que não seria prudente delegar a análise e a definição tanto estratégica em termos gerais, quanto no tocante ao apoio jurídico necessário para enfrentar essas questões, a softwares/robôs ou à Inteligência Artificial. Nas também não podemos admitir que executivos bem-preparados estejam “surpresos” ou sejam “pegos no contrapé” com essas questões.
Vivemos sim “tempos complexos”, mas que para alguns também trazem muitas oportunidades.
Em outras palavras, temos percebido uma possível “inversão de tendência” em muitas organizações, com o retorno à importante percepção do valor estratégico dos departamentos jurídicos estratégicos, que em conjunto com o apoio externo especializado de sócios experientes em escritórios de advocacia realmente destacados e focados no ambiente corporativo.
Como a mencionada e inusitada crescente complexidade de uma desafiadora nova ordem mundial, aliada ao aumento das questões jurídico-econômico corporativas domésticas, em notadamente em anos eleitorais e de grande tensão institucional e política, tem dominado as pautas de conselhos de administração e diretorias, e tendem a impactar, também, as assembleias gerais de investidores, tudo indica que estejamos vivendo o “contraponto” dos alardeados benefícios da automação plena e da substituição da experiência pela “máquina”.
Cumpre-nos ressaltar, porém, que esse cenário mais desafiador e incerto, que deve “nos acompanhar” por alguns anos, demanda justamente executivos muito bem preparados e experientes, criativos e atualizados, que se destaquem pelo efetivo apoio que consigam prestar ao “negócio”, ajudando a aproveitar oportunidades, gerar e construir valor, e perceber e gerir riscos, especialmente em setores e segmentos que estejam sendo mais impactados pelas mudanças tecnológicas, sociais, mercadológicas, culturais/geracionais, jurídicas e econômicas, tende a ser uma grande oportunidade e a abrir “muitas portas” a quem estiver preparado para esse conjunto de temas. Ou seja, “não será para todo mundo”.
É tempo de estudar, de se preparar, de “abrir a cabeça”, de estarmos atualizados e preparados para “pensar e agir fora da caixa”, sendo ainda mais especializados no universo corporativo para que consigamos ajudar cada vez mais as empresas e os negócios, de formas novas, modernas e “diferentes”, usando a tecnologia e todos os recursos atuais, sem que a eles nos rendamos e sem que nos deixemos “substituir por eles”.
Se os negócios e as empresas nem sempre podem delegar seus movimentos e estratégias de mercado às tecnologias robôs, por responsabilidade, por coerência, por cautela, e por sabedoria, em especial as mais importantes, o mesmo se passa com o apoio jurídico especializado e humanizado.
Talvez tenha chegado a hora do efetivo duelo humano x máquina, da experiência e da qualidade x custo, e do jurídico tradicional x efetivamente corporativo, e temos que trabalhar juntos para que as organizações que perceberam a importância dessas questões e a necessidade de apoio especializado e estratégico recebam o que precisam, e consigam manter e fomentar seus negócios.
Os cenários e os movimentos “atuais” seguirão afetando países, mercados, empresas e executivos por algum tempo, e num contexto cada vez mais “darwiniano”, quem se preparar e adaptar melhor e mais rapidamente sobreviverá.


