Quem vai ficar com o US$ 1,1 trilhão do Direito?

O mercado jurídico global movimenta hoje cerca de US$ 1,1 trilhão por ano. Para efeito de comparação: o mercado de software jurídico, aquele que durante décadas foi tratado como “inovação” no setor, vale algo em torno de US$ 35 bilhões. A inteligência artificial acabou de mudar o alvo dos investidores. Eles não querem mais vender ferramentas para advogados. Querem uma fatia do trilhão, o dinheiro que empresas de todos os portes gastam, todos os anos, com serviços jurídicos.

Os números explicam a corrida. Entre 2024 e 2026, legaltechs levantaram US$ 7,3 bilhões em cerca de 260 rodadas, com o volume de negócios quase dobrando de um ano para o outro. A Harvey, plataforma de IA jurídica americana, ultrapassou US$ 1 bilhão captados e chegou a um valuation de US$ 11 bilhões, mais de três vezes o valor de doze meses antes.

A Kirkland & Ellis, escritório de maior faturamento do mundo, anunciou US$ 500 milhões para construir uma plataforma própria de IA. E um relatório do Goldman Sachs estima que 44% do trabalho jurídico pode ser automatizado. Não existe outra indústria de serviços profissionais com essa combinação: gasto gigantesco, tarefa repetitiva em escala e margem protegida por tradição.

O Brasil deixou de assistir de camarote. Em maio, a Enter, legaltech fundada em 2023 que usa agentes de IA para produzir defesas em contencioso de massa para clientes como Itaú, Magalu e Latam, levantou mais de R$ 500 milhões em rodada liderada pelo Founders Fund, de Peter Thiel, com participação da Sequoia, e virou o primeiro unicórnio de IA da América Latina, avaliada em US$ 1,2 bilhão.

O racional dos fundos é quase constrangedor de tão óbvio: o país começou 2026 com cerca de 75 milhões de processos em andamento e concentra mais de 90% das ações trabalhistas do planeta. Somos o maior laboratório de litígio do mundo e, portanto, o maior mercado para quem consegue processá-lo por software.

Mas o movimento mais desconfortável para a advocacia tradicional não é a venda de tecnologia. É a criação de concorrentes. A Y Combinator, aceleradora mais influente do Vale do Silício, passou a estimular fundadores a abrirem os próprios escritórios de advocacia nativos de IA com a promessa explícita de extinguir os “dinossauros” do setor.

A provocação virou tese de investimento: a Norm Ai recebeu US$ 50 milhões da Blackstone para lançar o escritório Norm Law, que cobra por resultado, não por hora. A Manifest levantou US$ 60 milhões com valuation de US$ 750 milhões vendendo exatamente o fim da hora faturável. São escritórios desenhados do zero para serem mais rápidos, mais previsíveis e mais conectados ao negócio do cliente do que qualquer banca centenária.

E não são só startups. A KPMG lançou no mês passado, em Portugal, a KPMG Law: sociedade de advogados criada do zero, sem legado, com sete sócios, cerca de 40 advogados e plano de passar de 70 profissionais em dois anos, integrada a uma rede global de aproximadamente 4 mil advogados em mais de 100 países. A Deloitte já havia incorporado uma banca de 150 advogados no mesmo mercado.

Quando uma Big Four decide que o Direito é pilar estratégico global, ela não está abrindo “mais uma área”. Está dizendo ao cliente corporativo que o jurídico deixou de ser um silo e passou a ser parte da decisão de negócio, junto com o fiscal, o financeiro e o tecnológico.

Para o executivo, a consequência prática vem em três camadas.

Primeiro, o departamento jurídico interno muda de natureza: sai a lógica de repassar volume para escritórios e entra a lógica de plataforma: dados, automação e risco medido em tempo real, com o orçamento justificado por eficiência entregue, não por horas contratadas. Segundo, a avaliação de risco muda de velocidade: quando a IA lê 300 mil processos por ano, como já faz a Enter, risco jurídico vira variável de gestão contínua, não parecer trimestral. Terceiro, e mais importante: o critério de escolha do escritório muda.

É aqui que mora o ponto cego. Quando todos os players tiverem acesso à mesma tecnologia e terão, porque IA de prateleira não é diferencial, é commodity, o que separa um escritório do outro deixa de ser a petição e passa a ser a experiência de trabalhar com ele.

Os dados do Legal CX Report Brasil 2025, pesquisa nacional que coordenei com mais de 250 lideranças do setor, mostram o tamanho da vulnerabilidade: apenas 11% dos escritórios brasileiros têm estratégia formal de experiência do cliente, 73% das avaliações dos clientes caem na zona neutra (nem encantados ou insatisfeitos, apenas disponíveis para a concorrência) e 91% da perda de clientes decorre de falhas de experiência, não de qualidade técnica.

Traduzindo para a linguagem executiva: o setor jurídico brasileiro compete por um mercado trilionário global apoiado em um ativo que ele não mede, não gerencia e não precifica. A tecnologia vai resolver a entrega. A pergunta de US$ 1,1 trilhão é outra: quem vai resolver a relação?

Os dinossauros não foram extintos por serem grandes. Foram extintos porque o ambiente mudou mais rápido do que eles. O ambiente jurídico acabou de mudar. O cronômetro está correndo e, desta vez, ele não cobra por hora.

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