A transformação da advocacia brasileira vive um marco histórico duplo: ao mesmo tempo em que as mulheres atingem a paridade numérica na profissão e ocupam posições inéditas de liderança, a incorporação acelerada da Inteligência Artificial impõe novos desafios éticos, regulatórios e procedimentais. Esse cenário exige que as entidades de classe atuem na linha de frente tanto para converter a representatividade numérica em influência real nos espaços de decisão quanto para garantir que a busca por eficiência tecnológica não comprometa os direitos fundamentais do cidadão.
No centro desse debate está a preservação das garantias processuais diante do avanço do Judiciário digital e do julgamento virtual. O uso intensivo de algoritmos na gestão de processos e na tomada de decisões traz ganhos expressivos de produtividade, mas acende alertas sobre a necessidade de supervisão humana constante, transparência nos sistemas e a defesa irrestrita de instrumentos essenciais como a sustentação oral — momentos em que o diálogo e a oralidade humana mostram-se insubstituíveis pela automação.
Para discutir a maturidade da advocacia frente à tecnologia, o fortalecimento das lideranças femininas e a defesa das prerrogativas profissionais, conversamos com Paula Lima Hyppolito de Oliveira, Presidente da AASP (Associação dos Advogados de São Paulo). Terceira mulher a presidir a instituição em 83 anos e a primeira a suceder outra mulher no cargo, ela compartilha dados inéditos sobre o uso de IA pelos advogados e reforça os pilares de uma inovação responsável no ecossistema jurídico.
1. A senhora é a terceira mulher a presidir a AASP em 83 anos de história, e a primeira a suceder outra mulher no cargo. Construiu carreira no Direito Penal, uma área tradicionalmente masculina. O que essa trajetória te ensinou sobre os obstáculos que ainda existem — mesmo hoje, com as mulheres já representando cerca de metade da advocacia brasileira?
A presença feminina na advocacia brasileira avançou de maneira extraordinária nas últimas décadas. Hoje, já falamos de uma profissão em que as mulheres representam metade das inscrições na Ordem dos Advogados do Brasil. Isso é um marco importante, mas não significa que a igualdade tenha sido plenamente alcançada.
Minha trajetória no Direito Penal, uma das áreas historicamente mais masculinas da profissão, mostrou que as barreiras atuais são mais sutis do que no passado. Hoje, elas aparecem na dificuldade de acesso aos espaços de maior influência, na menor presença feminina em posições estratégicas, na distribuição desigual das oportunidades de liderança e, muitas vezes, na expectativa de que a mulher precise comprovar continuamente uma competência que, para os homens, costuma ser presumida.
Ao mesmo tempo, acredito que estamos vivendo uma mudança geracional muito positiva. As novas lideranças femininas não querem apenas ocupar cadeiras; querem participar da definição dos rumos da profissão e das instituições.
Na AASP temos orgulho de contribuir para esse movimento. O fato de eu ser a primeira presidente a suceder outra mulher demonstra que a presença feminina deixou de ser episódica para passar a integrar naturalmente a governança da entidade. Esse talvez seja o maior sinal de maturidade institucional: quando diversidade deixa de ser exceção e passa a ser parte da cultura.
2. A senhora já afirmou que “representatividade não se esgota na maioria numérica”. Na prática, o que precisa mudar dentro dos escritórios e das entidades de classe para que essa representatividade numérica vire representatividade de fato nos espaços de liderança?
O primeiro passo é compreender que diversidade não é apenas uma pauta de justiça social. É uma estratégia de fortalecimento institucional. Ter mulheres compondo a base da advocacia não garante, automaticamente, que elas participem das decisões mais relevantes. O desafio está justamente na transição entre presença e influência.
Isso exige processos transparentes de promoção, critérios objetivos para ocupação de cargos de liderança, programas estruturados de desenvolvimento, mentorias, políticas que favoreçam a permanência das mulheres na carreira e, principalmente, uma cultura organizacional que reconheça diferentes estilos de liderança.
Também é importante ampliar a diversidade de experiências que chegam aos espaços decisórios. Instituições mais plurais produzem decisões mais qualificadas, mais inovadoras e mais conectadas com a realidade da sociedade.
Mais do que incentivar o debate, a AASP decidiu transformar esse compromisso em política institucional. Nos últimos anos, promovemos mudanças importantes em nosso Estatuto para fortalecer a participação feminina nos espaços de decisão e ampliar a representatividade na governança da Associação.
Hoje, essa diretriz também se reflete na composição da Diretoria, do Conselho, na seleção de docentes para nossos cursos, na curadoria da Revista e do Boletim da AASP e na escolha de palestrantes para eventos e congressos.
Trata-se de garantir que o talento existente na advocacia brasileira tenha oportunidades reais de ser visto, ouvido e reconhecido, independentemente de gênero, idade, raça, origem etc. Instituições que produzem conhecimento e representam uma profissão têm a responsabilidade de refletir a diversidade dessa própria profissão. É assim que se constroem lideranças mais legítimas, decisões mais qualificadas e uma advocacia mais preparada para responder aos desafios do nosso tempo.
3. A senhora tem alertado que a incorporação de novas tecnologias não pode resultar em restrição de direitos fundamentais da advocacia. Que riscos concretos a senhora enxerga na adoção acelerada de IA pelo Judiciário e pelos próprios escritórios, se isso não vier acompanhado de salvaguardas para as prerrogativas profissionais?
A Inteligência Artificial representa uma das maiores transformações da história recente do Direito. Mas toda inovação precisa caminhar ao lado da segurança jurídica. Quando falamos do uso de IA pelo Poder Judiciário, não estamos discutindo apenas eficiência operacional. Estamos falando de garantias constitucionais, transparência, devido processo legal e controle das decisões.
Alguns riscos merecem atenção especial: utilização de algoritmos sem transparência, ausência de supervisão humana efetiva, reprodução de vieses, dificuldades de auditoria dos sistemas e, sobretudo, o enfraquecimento de direitos fundamentais da Advocacia, como a sustentação oral, o contraditório e a ampla defesa. Nos escritórios, o desafio é semelhante. A IA aumenta produtividade, acelera pesquisas, organiza documentos e apoia a elaboração de peças, mas não substitui o julgamento jurídico, a responsabilidade profissional nem a análise crítica do advogado.
Uma pesquisa nacional recente realizada pela AASP mostra exatamente essa maturidade da Advocacia. Quase 90% dos profissionais já utilizam IA, reconhecem seus ganhos de eficiência, mas também defendem supervisão humana e regulamentação para seu uso. Isso demonstra que a profissão não rejeita a tecnologia; ela exige governança para utilizá-la com responsabilidade.
O levantamento revelou também que 87,4% da Advocacia já utiliza IA em sua atividade profissional e 84,3% identifica ganhos concretos de produtividade, demonstrando que a tecnologia deixou de ser uma promessa para se tornar uma realidade cotidiana. Mais do que isso, 95,6% acreditam que a Inteligência Artificial provocará mudanças significativas na profissão na próxima década, o que evidencia uma percepção clara de que essa transformação é estrutural e irreversível.
Mas talvez o dado mais interessante seja outro: a pesquisa mostra que a advocacia brasileira não quer uma inovação sem regras. 75,4% dos respondentes afirmam confiar nas respostas produzidas pela IA apenas quando há revisão humana, 74,2% defendem algum tipo de regulamentação para o uso da tecnologia e 85,3% entendem que a capacitação específica dos profissionais é indispensável para uma adoção responsável.
Outro aspecto revelador é que os profissionais demonstram elevada consciência dos riscos. Quando perguntados sobre as maiores preocupações relacionadas ao uso da IA, a resposta mais frequente foi a possibilidade de informações incorretas ou “alucinações” produzidas pelos sistemas, seguida pelo receio do uso sem supervisão humana. Em outras palavras, a advocacia não está preocupada em substituir o advogado pela máquina; está preocupada em garantir que a tecnologia permaneça como instrumento de apoio à decisão jurídica, jamais como substituta da responsabilidade profissional.
É exatamente essa a posição da AASP. Não defendemos uma visão tecnofóbica nem uma adoção irrestrita da Inteligência Artificial. Defendemos uma inovação responsável, baseada em governança, transparência, supervisão humana, capacitação contínua e preservação das prerrogativas profissionais. A tecnologia deve ampliar a capacidade técnica da advocacia e fortalecer o acesso à Justiça, nunca reduzir garantias fundamentais nem comprometer a confiança no sistema jurídico.
4. Ao mesmo tempo, a IA promete ganhos reais de eficiência para a advocacia. Como a senhora concilia esse discurso de cautela com o reconhecimento de que a tecnologia também pode fortalecer a atuação do advogado, e não apenas ameaçá-la?
Na verdade, não existe contradição entre inovação e responsabilidade. A tecnologia sempre transformou a advocacia. Foi assim com os processos eletrônicos, com a certificação digital, com as plataformas de pesquisa jurídica e agora acontece com a Inteligência Artificial.
A IA tem enorme potencial para automatizar tarefas repetitivas, reduzir tempo operacional, ampliar a capacidade analítica dos escritórios e permitir que o advogado concentre sua atuação naquilo que nenhuma máquina consegue reproduzir integralmente: estratégia, negociação, interpretação jurídica, construção argumentativa, ética e relacionamento humano.
O futuro não será da inteligência artificial substituindo a Advocacia. Será de quem souber utilizar a inteligência artificial de forma ética, crítica e estratégica. Nosso papel, enquanto entidade representativa, é justamente preparar a advocacia para esse novo cenário, oferecendo conhecimento, capacitação, produtos especializados e defendendo regras que garantam inovação com segurança jurídica.
5. Outro tema que a senhora tem defendido é o direito à sustentação oral, inclusive diante da digitalização dos processos. Por que esse direito é tão central para a advocacia, e qual o risco de ele ser progressivamente esvaziado pela tecnologia e pela ampliação de julgamentos virtuais?
A sustentação oral não é um privilégio da advocacia. Ela é uma garantia do cidadão e uma das manifestações mais concretas do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal. É o momento em que o advogado dialoga diretamente com o julgador, contextualiza o caso, esclarece pontos sensíveis, responde a questionamentos e apresenta aspectos que, muitas vezes, não são plenamente capturados pela leitura das peças processuais. Especialmente nos casos mais complexos ou de grande impacto social, esse diálogo qualificado pode ser decisivo para a formação do convencimento judicial.
Nenhum sistema automatizado, por mais sofisticado que seja, substitui essa interação humana. A Justiça não é apenas aplicação mecânica de normas; ela exige escuta, ponderação e compreensão das particularidades de cada caso concreto. A oralidade continua sendo um elemento essencial da jurisdição democrática.
É evidente que a transformação digital trouxe avanços importantes. Os processos eletrônicos ampliaram o acesso à Justiça, reduziram custos e tornaram a tramitação mais eficiente. A própria Inteligência Artificial tem potencial para apoiar magistrados e advogados em atividades repetitivas e analíticas. O desafio é garantir que essa busca por eficiência não produza um efeito colateral indesejado: a redução dos espaços de participação da advocacia e, consequentemente, o enfraquecimento das garantias processuais.
A preocupação da AASP sempre foi exatamente essa. Defendemos que a tecnologia seja utilizada para aperfeiçoar a prestação jurisdicional, jamais para restringir direitos fundamentais. Por isso, a Associação tem atuado institucionalmente perante os Tribunais Superiores e o Conselho Nacional de Justiça, inclusive por meio de manifestações e pedidos de ingresso como amicus curiae, para assegurar que a modernização do Judiciário preserve o exercício pleno da sustentação oral, especialmente nos julgamentos virtuais.
Esse debate vai além da advocacia. Está diretamente relacionado à confiança da sociedade no Poder Judiciário. Em um momento em que discutimos previsibilidade das decisões, transparência, legitimidade institucional e fortalecimento do Estado Democrático de Direito, é essencial preservar mecanismos que permitam o efetivo diálogo entre magistratura e advocacia. Quanto mais relevantes e complexas forem as decisões dos Tribunais Superiores, maior deve ser o espaço para o contraditório qualificado.
A tecnologia deve aproximar o cidadão da Justiça, não afastá-lo. Modernizar o Judiciário significa torná-lo mais eficiente, mas também mais transparente, mais participativo e mais comprometido com as garantias constitucionais. Eficiência e direitos fundamentais não são objetivos concorrentes; são condições complementares para uma Justiça verdadeiramente moderna, legítima e confiável.
As reflexões apresentadas por Paula Lima Hyppolito de Oliveira demonstram que o futuro do Direito não depende unicamente da velocidade de adoção de novas tecnologias, mas da capacidade das instituições de conduzir essa transição com responsabilidade ética e institucional. Seja garantindo a equidade nos espaços de liderança para refletir a verdadeira composição da advocacia, seja exigindo governança na implementação da Inteligência Artificial ou defendendo prerrogativas como a sustentação oral, o papel das entidades de classe permanece vital. Uma Justiça verdadeiramente moderna e legítima é aquela que utiliza a tecnologia como ferramenta de ampliação de eficiências sem jamais abrir mão da centralidade do ser humano e das garantias fundamentais da cidadania.


