Por muito tempo, investir em tecnologia foi tratado pela advocacia como uma vantagem competitiva, algo que diferenciava os escritórios mais inovadores do restante do mercado. Esse cenário mudou. Volume crescente de processos, prazos mais apertados, pressão por produtividade e clientes cada vez mais exigentes transformaram a tecnologia em condição básica de operação, tanto para escritórios de advocacia quanto para departamentos jurídicos dentro das empresas.
A pergunta que resta não é mais “vale a pena adotar IA”, mas sim como distinguir uma adoção que apenas corta custos pontuais de uma que efetivamente sustenta o crescimento do negócio jurídico no médio e longo prazo.
Para discutir esse movimento, conversamos com Carlos Manino, Diretor de Soluções e Negócios da TOTVS JuriTIs. Acompanhando de perto tanto escritórios quanto departamentos jurídicos corporativos, Manino apresenta o conceito de integração entre Inteligência Humana e Inteligência Artificial (IH + IA) como chave para superar resistências e explica quais indicadores realmente comprovam maturidade tecnológica, em contraste com a simples acumulação desorganizada de ferramentas.
Na entrevista a seguir, ele também detalha onde a IA generativa já entrega valor mensurável ao Direito e onde ainda promete mais do que cumpre, além de apresentar o LYNN, o foundation de inteligência artificial B2B desenvolvido pela TOTVS para o ecossistema jurídico.
- Quando olhamos para a trajetória da advocacia brasileira nos últimos anos, fica claro que a tecnologia deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar uma condição de sobrevivência. Na sua visão, o que explica essa virada de chave, e o mercado jurídico como um todo já está maduro o suficiente para absorver essa transformação?
A virada de chave é explicada pela necessidade cada vez mais urgente de lidar com um volume crescente de informações e prazos de missão crítica com maior eficiência e segurança. Além disso, o aumento da complexidade das demandas, a pressão por produtividade e a necessidade de oferecer uma experiência superior aos clientes aceleraram esse movimento. O mercado está amadurecendo rapidamente porque os escritórios e departamentos jurídicos percebem que os controles manuais geram custos altos e riscos operacionais que já não são aceitáveis.
Ainda há diferentes níveis de maturidade entre as organizações, mas a tecnologia deixou de ser vista apenas como uma ferramenta de apoio e passou a ocupar um papel estratégico. A transformação digital potencializa o trabalho do advogado e é fundamental para manter a competitividade diante do aumento das demandas e da complexidade das operações legais.
- A TOTVS acompanha de perto tanto escritórios de advocacia quanto departamentos jurídicos internos de empresas. Existe uma diferença relevante na forma como esses dois públicos enxergam e adotam a IA, ou os desafios e resistências acabam sendo parecidos independentemente do tipo de organização?
As dores centrais são parecidas e estão relacionadas à organização dos fluxos de trabalho, à qualidade dos dados, à segurança da informação e à necessidade de fazer mais com os recursos disponíveis. A diferença está na aplicação prática, já que os escritórios de advocacia focam no atendimento aos clientes, na gestão da carteira e na rentabilidade dos serviços prestados, enquanto os departamentos jurídicos priorizam a governança, o controle de provisões e a redução de custos administrativos corporativos.
Em ambos os cenários, a resistência inicial é superada quando demonstramos que a chave do sucesso está na integração entre IH + IA (Inteligência Humana + Inteligência Artificial). A IA é uma alavanca de escala e produtividade, mas a Inteligência Humana permanece estritamente no comando estratégico. Por meio da atuação especializada da TOTVS JuriTIs, mostramos que a tecnologia apoia a análise, automatiza etapas repetitivas e elimina o trabalho braçal, liberando os especialistas para o que realmente gera valor: o julgamento crítico, a construção da tese, a tática jurídica e a tomada de decisão.
- Muito se fala em “eficiência” quando o assunto é IA no jurídico, mas eficiência nem sempre significa crescimento sustentável. Como você diferencia, na prática, uma adoção de tecnologia que apenas corta custos pontuais de uma que efetivamente constrói uma base sólida para o crescimento do escritório no médio e longo prazo?
O corte de custos pontual resolve problemas imediatos e isolados, mas não prepara a operação para escalar. A adoção tecnológica voltada ao crescimento sustentável centraliza dados, automatiza rotinas e fornece indicadores estratégicos precisos para a tomada de decisão. Ela também melhora a qualidade das informações, reduz a dependência de processos manuais e permite identificar gargalos antes que eles comprometam a operação.
O crescimento estruturado exige ferramentas integradas que garantam previsibilidade e segurança no longo prazo, tornando a operação robusta para absorver novas demandas sem a necessidade de aumentar os custos operacionais na mesma proporção. Mais do que economizar, trata-se de criar capacidade operacional, preservar a qualidade do serviço e liberar os profissionais para atividades de maior valor agregado.
- Pensando no conceito de crescimento sustentável, quais indicadores ou sinais você considera essenciais para saber se um escritório está realmente construindo uma base tecnológica sólida, e não apenas acumulando ferramentas de forma desorganizada?
A previsibilidade operacional e a redução de falhas de comunicação são os principais sinais de uma base sólida. Também é importante observar indicadores como o tempo dedicado a tarefas administrativas, o cumprimento de prazos, a qualidade dos dados, a taxa de retrabalho, a produtividade das equipes e a capacidade de acompanhar a rentabilidade da operação.
A capacidade de organizar e analisar dados judiciais de forma estruturada, o controle detalhado de prazos sem esforço manual e a integração de informações em uma única plataforma demonstram que a organização possui maturidade tecnológica. O foco deve ser a resolução de dores específicas com alta integração e aderência às demandas legais, evitando a adoção de sistemas fragmentados que não se comunicam entre si.
Tecnologia, nesse contexto, não deve ser medida pelo número de ferramentas utilizadas, mas pela capacidade de gerar resultados consistentes e apoiar decisões melhores.
- Falando especificamente de IA generativa aplicada ao Direito, quais aplicações você considera que já entregam valor real e mensurável hoje, e quais ainda estão mais no campo da promessa do que da entrega efetiva?
A inteligência artificial já entrega valor real na análise de grandes volumes de dados, no acompanhamento processual inteligente, na classificação de documentos, na extração de informações, na elaboração de resumos e na automação de rotinas repetitivas. Contudo, modelos de IA generativa abertos e generalistas podem ser úteis em tarefas genéricas, mas no ecossistema jurídico — onde lidamos com processos de missão crítica, prazos fatais e sigilo —, a falta de acurácia, as “alucinações” e a ausência de governança representam riscos inaceitáveis.
O setor jurídico não precisa de respostas criativas de uso geral; precisa de inteligência artificial de propósito específico, treinada sobre dados confiáveis e integrada aos fluxos reais de trabalho.
É exatamente para responder a essa demanda que desenvolvemos o LYNN, o primeiro foundation de inteligência artificial B2B do Brasil. O LYNN provê a infraestrutura, a orquestração e os guardrails de segurança necessários para criar agentes de IA altamente especializados no contexto jurídico.
A partir dessa arquitetura, viabilizamos o modelo de TaaS (Task as a Service) — ou “tarefa como serviço” —, no qual esses agentes autônomos executam tarefas complexas e rotinas operacionais rodando dentro do ambiente seguro e controlado do TOTVS Cloud.
Dessa forma, não entregamos apenas o acesso ao software, mas a execução de tarefas com precisão, previsibilidade, total segurança de dados e ganho real de produtividade para empresas e escritórios.
O crescimento sustentável no jurídico não se mede pela quantidade de ferramentas adotadas, mas pela capacidade de transformar dados dispersos em previsibilidade, segurança e decisões melhores. O modelo de IH + IA proposto pela TOTVS JuriTIs, no qual a inteligência artificial escala tarefas operacionais enquanto a inteligência humana permanece no comando estratégico, aponta para um caminho em que tecnologia de propósito específico, como o LYNN, substitui promessas genéricas por resultados mensuráveis.
Para escritórios e departamentos jurídicos que buscam competitividade duradoura, o recado do executivo é direto: a base tecnológica precisa ser construída com integração e método, não empilhada aos poucos sem critério.


