Inteligência Artificial na advocacia: Quem fica com o tempo que a IA devolve ao advogado?

A inteligência artificial já permite que um advogado resolva em minutos tarefas que antes consumiam horas inteiras de trabalho. Mas esse ganho de tempo traz uma pergunta desconfortável para os escritórios de advocacia: essa economia se traduz em honorários menores para o cliente, em maior margem para a firma, ou numa redistribuição do trabalho que termina exigindo a mesma coisa de sempre, só que mais rápido? A resposta não é óbvia, e tem implicações diretas sobre como se cobra, como competem escritórios de tamanhos diferentes e como se forma a próxima geração de advogados.

Para explorar essas tensões, conversamos com Vinicius Teixeira, representante da Magnar no Brasil. Na entrevista a seguir, ele analisa o que o cliente está realmente pagando ao contratar um advogado, se a tecnologia pode nivelar o terreno entre escritórios grandes e pequenos, como formar advogados jovens quando as tarefas com as quais tradicionalmente aprendiam estão sendo automatizadas, e quais decisões um escritório precisa tomar para que o tempo liberado pela IA se transforme em valor real, e não apenas em mais exigência de produção.

  1. A economia se traduz em preços menores ou em maior margem para o escritório?

 Pode se transformar em ambas as coisas, mas primeiro é preciso fazer com que a eficiência exista de fato. Comprar licenças de qualquer solução é a parte fácil. O que exige investimento é mudar práticas, formar as equipes e ter uma liderança que impulsione a adoção. A economia deve ser avaliada considerando esse esforço, além do tempo que uma tarefa leva. A discussão vai além de cobrar menos porque algo levou menos tempo. Trata-se de o cliente receber um benefício concreto e de o escritório conseguir sustentar o investimento necessário para trabalhar melhor.

  1. O que o cliente está pagando: tempo, critério ou responsabilidade?

O cliente paga para entender sua situação, avaliar alternativas e contar com um profissional que revise, recomende e se responsabilize por essa recomendação. O tempo é uma forma de medir o trabalho, mas não define, por si só, o seu valor. A IA pode reduzir o trabalho necessário para chegar a uma resposta. O critério do advogado continua sendo decisivo para verificá-la e colocá-la em contexto. A eficiência deveria permitir cobrar por essa contribuição profissional, em vez de justificar horas que deixaram de ser necessárias.

  1. Os escritórios pequenos poderão competir por clientes que antes pareciam fora do seu alcance?

Essa oportunidade depende de como eles incorporam a tecnologia ao trabalho, além de terem acesso a ela. Uma equipe pequena que fizer isso bem poderia competir com uma maior que tenha ferramentas, mas continue trabalhando do mesmo jeito. A tecnologia também abre espaço para equipes mais multidisciplinares, em que advogados e profissionais de tecnologia trabalhem juntos para resolver as necessidades do cliente. A aposta é que o tamanho deixe de ser uma barreira tão determinante e que pesem mais a especialização, o critério e a capacidade de entregar um bom serviço.

  1. Como se formam os advogados jovens se as tarefas com as quais eles aprendiam forem automatizadas?

Esse é um dos desafios mais importantes. As firmas precisam continuar formando advogados porque sua capacidade futura depende deles. Ao mesmo tempo, surge uma tensão concreta: para um sócio, pode ser mais rápido resolver uma tarefa com IA do que explicá-la a um advogado jovem, esperar e corrigi-la. A resposta precisa ser adaptar a formação. Usar a ferramenta pode fazer parte do aprendizado, desde que o jovem entenda o problema, confronte as fontes e consiga explicar por que recomenda uma solução.

Na Magnar, estamos trabalhando com universidades por meio da Magnar Campus e desenvolvendo, com alguns parceiros, versões da plataforma pensadas para apoiar essa formação. O objetivo é que eles aprendam a trabalhar com a tecnologia, mais do que a operar um produto específico. A supervisão e a experiência continuam sendo essenciais. A ferramenta pode ajudar a reduzir o custo de formar; a decisão de dedicar tempo a isso continua sendo das universidades e das firmas.

  1. Se um advogado pode fazer o mesmo trabalho em menos tempo, ele poderá trabalhar menos ou simplesmente será exigido a produzir mais?

A tecnologia libera tempo, mas como ele é usado depende das decisões do escritório. Se toda a economia se converte em mais demandas e metas de produção maiores, o advogado pode acabar igualmente exigido, ainda que faça cada tarefa mais rápido. Também existe a oportunidade de dedicar esse tempo ao que um profissional realmente precisa fazer: entender melhor um assunto, conversar com o cliente, formar os advogados jovens ou reduzir jornadas que se alongavam por trabalho repetitivo.

Na Magnar, queremos que o advogado possa se concentrar no que gera valor: seu critério, experiência e capacidade de decisão. Para que isso aconteça, o escritório também precisa revisar como distribui o trabalho e como avalia suas equipes.

A conversa com Vinicius Teixeira deixa uma ideia central: o tempo que a IA devolve ao advogado não tem um destino automático. Pode se converter em honorários melhores para o cliente, em maior margem para o escritório, em formação para os advogados jovens ou simplesmente em mais exigência de produção, e a diferença é definida por decisões deliberadas de cada firma, não pela ferramenta em si.

O verdadeiro valor do advogado, defende Teixeira, continua estando no critério, na experiência e na responsabilidade profissional — justamente aquilo que nenhuma eficiência tecnológica consegue automatizar.

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