Quando a tecnologia liberta, o que o homem escolhe fazer?

por Giovanni Ometto

A maior promessa da tecnologia nunca foi fazer mais. Foi, na verdade, liberar a escolha sobre o que fazer.

Hans Rosling, médico sueco, acadêmico e orador público gostava de contar uma história sobre a família e a máquina de lavar: Antes de ter uma em casa, a avó passava horas lavando roupa à mão — um trabalho longo, físico, que consumia boa parte do dia, da semana, do mês. Quando a máquina chegou, algo mudou muito além da limpeza das roupas: sobrou tempo. E a mãe dele resumiu isso perfeitamente ao apontar para o eletrodoméstico e dizer:

“Agora nós podemos ir à biblioteca”

Com o tempo livre gerado pela tecnologia, vieram a leitura, a educação e a transformação da trajetória da família inteira. A máquina de lavar, dizia Rosling, não libertou o tempo. Libertou a escolha do que fazer com ele. (Confira a história completa no TED Talk).

Essa história tem pouco a ver com eletrodoméstico, mas tudo a ver com o momento que o mercado jurídico está vivendo agora.

O paradoxo do escritório moderno

O advogado de hoje tem mais tecnologia do que qualquer geração anterior. Tem sistema de gestão, painel de indicadores, processo eletrônico, assinatura digital, videoconferência, inteligência artificial… E ainda assim, dados divulgados em relatórios recentes do setor — como o Report on the State of the Legal Market, da Thomson Reuters — apontam que profissionais do Direito chegam a desperdiçar até 60% da jornada em tarefas operacionais e não faturáveis.

Sessenta por cento. Em plena era digital.

O problema não é a ausência de tecnologia. É que a tecnologia chegou, mas a pergunta certa ainda não foi feita. O mercado passou anos perguntando “como automatizo o que faço?”  e esqueceu de perguntar “o que eu deveria estar fazendo,de verdade?”

Digitalizar não é transformar. É só fazer o mesmo mais rápido.

A Advocacia 5.0 começa exatamente onde essa distinção fica clara: não na implantação de um sistema, mas na decisão de usá-lo com propósito.

A decisão que nenhum software toma

Existe um gargalo que toda conversa sobre transformação jurídica encontra em algum momento. Não é tecnológico, é humano.

É o líder que concorda com a mudança em teoria e congela na prática. Que aprova a ferramenta, mas mantém o processo. Que investe no sistema e preserva a cultura que o sistema veio substituir.

A transformação real começa antes do software. Começa quando alguém decide que o modelo atual tem um custo que não aparece no balanço — mas aparece no cansaço da equipe, na qualidade das peças, no tempo que nunca sobra para pensar. Essa decisão é insubstituível. E ela precede qualquer conversa sobre automação.

A avó de Rosling não ganhou tempo porque a máquina era boa. Ganhou tempo porque alguém decidiu que lavar roupa à mão não era o melhor uso da vida dela.

O que fazer com o que sobra?

Quando a automação finalmente assume o operacional, acontece algo que poucos escritórios estavam preparados para receber: sobra capacidade.

Não é tempo livre. É espaço mental. É o fio de raciocínio que não precisa ser interrompido para verificar um andamento. É a tarde que não começa com uma fila de tarefas mecânicas. É o advogado que chega numa audiência tendo pensado no caso, estrategicamente e com verdadeiro senso crítico — não na logística do dia.

A neurociência já documentou o custo da interrupção com precisão: segundo pesquisas da Universidade da Califórnia (UCI) conduzidas pela cientista Gloria Mark, o cérebro leva cerca de 23 minutos para recuperar o foco profundo após uma distração. No modelo atual, esse ciclo se repete dezenas de vezes por dia. E, vale salientar, a automação não devolve apenas minutos, mas sim, a capacidade de pensar com profundidade — e no Direito, é exatamente aí que se encontra o segredo do sucesso.

A pergunta que a Advocacia 5.0 coloca não é “como economizo tempo?”. É “o que escolho fazer quando esse tempo for meu?”

Quem sente, no fim, é o cliente!

Existe um personagem que raramente aparece nas discussões sobre transformação jurídica. Não é o sócio, não é o advogado, não é o gestor. Ironicamente, é quem contratou o escritório.

O cliente não sabe o nome do sistema implantado. Não conhece a arquitetura da automação. Mas sente, com precisão surpreendente, quando o advogado tem tempo para ouvi-lo. Quando a resposta chega sem demora. Quando a atenção que recebe não parece apertada entre uma tarefa e outra. Ele sente… quando é uma prioridade.

A eficiência operacional, quando existe de verdade, se traduz em presença humana. E presença humana, no Direito, é tudo. E coincidentemente, o Direito não pertence a grande área das ‘Ciências Humanas’?

A Advocacia 5.0 não é uma promessa de escritório sem pessoas. É uma promessa de pessoas que finalmente podem estar onde importa: no caso, na estratégia, no cliente.

A escolha que define o próximo capítulo

O mercado jurídico vive hoje um momento em que essa conversa amadureceu. O setor não pergunta mais se vai transformar. Pergunta como — e, cada vez mais, para quê.

A mãe de Rosling escolheu ir à biblioteca. Mudou a trajetória de uma família inteira com o tempo que a máquina devolveu.

O Direito está diante da mesma encruzilhada. A automação já é uma realidade; ela aconteceu, está acontecendo e o tempo vai sobrar.

A única pergunta que importa é se você já sabe o que vai fazer com ele. Ou se vai descobrir tarde demais que passou a vida otimizando tarefas que nunca deveriam ter sido suas.

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