De operadores do direito a estrategistas jurídicos

Por muito tempo um dos principais jargões do nosso universo jurídico, usado quando se pretendia abordar de forma mais genérica a atividade desempenhada pelos agentes que atuavam nas chamadas “carreiras jurídicas”, estampava que éramos “operadores do direito”. E todos bem entendíamos o significado dessa frase, mas o que foi verdade por tantos anos, mudou!

Como “idealmente” tudo melhora com a evolução da sociedade e o passar do tempo, com novas demandas, novas questões, novas realidades, novos contextos – e novas tecnologia, o Direito e os chamados Operadores do Direito não seriam exceções; e mudaram.

Há algumas décadas temos percebido que as dúvidas sobre o “futuro do direito”, e sobre “o futuro da advocacia”, vem aumentando e se multiplicando, havendo inclusive quem preconize que “a advocacia está morrendo”. Nesse raciocínio, estariam igualmente “morrendo” todas as carreiras jurídicas e todos os operadores do direito?

Temos defendido fortemente que nem o Direito e nem a Advocacia estão desaparecendo (assim como as demais carreiras), e que nem isso ocorrerá (ao menor por um bom tempo), mas é sabido que importantes e profundos ajustes surgem a todo momento; de forma que quem pretender sobreviver e continuar trabalhando com relevância na atividade jurídica (especialmente a de mais impacto e mais estratégica) precisará estar atento às mudanças e sempre atualizado. O que for “meramente” operacional e replicável já foi/já é automatizado e o impacto dessa transformação é enorme, demandando compreensão e estratégia de todos.

As carreiras jurídicas não são alheias, e nem imunes ao que ocorre “na vida e no mundo”, e são impactadas como as demais carreiras e atividades profissionais. E todos temos que entender que já não fazia/nem faz mais sentido “apenas” operar o Direito, mas sim “lidar com ele” de forma mais profunda; e de fato estratégica.

Quem acompanha o tema na prática ao longo das últimas 5 (cinco) décadas, por exemplo, vivencia o quanto  esses temas já mudaram através dos anos, em virtude de mudanças na sociedade em geral, na tecnologia, na forma como o Direito vem sendo percebido e utilizado, da chegada da automação de várias atividades, rotinas e “trabalhos” jurídicos, assim como de diversos outros avanços tecnológicos como as reuniões e audiências digitais, o surgimento (e o desenvolvimento) de portais de apoio (pesquisas, informações, acompanhamento etc.), e da inteligência artificial, dentre outras. E mudará mais e mais.

Em muitas e muitas atividades já nem existe interação humana (em nenhum momento), mas a responsabilidade envolvida, no que tange a todos os agentes, não apenas não “sumiu” como está aumentando.

O fato de protocolos, análises, reuniões e audiências, dentre outros, passarem a ser digitais muda bastante as tarefas, mas defendemos que não afastem os aspectos de estratégia e nem de responsabilidade.

Reiteramos, portanto, que a grande questão é que foi “automatizado” é a operação, ou seja, as “meras” tarefas, que podem e devem mesmo ser automatizadas, uma vez que na maioria dos casos podem gerar economia de tempo e de custo, e melhorar a qualidade do “serviço”, mas não o “cerne” da questão e muito menos a parte estratégica e a responsabilidade.

No tocante aos advogados, por exemplo, que até há algum tempo eram denominados operadores do direito (dentre os demais) – como propomos no título deste breve artigo, o tema está longe de ser novo, pois no contexto do trabalho/serviço jurídico, o que começou sendo delegado a assistentes, a aprendizes e a outros profissionais (mais jovens, “juniores”, em formação e “de apoio”), passou a ser delegado/alocado a “máquinas (ou melhor, a sistemas, softwares, ferramentas, plataformas, algoritmos e demais “agentes”).

Em outras palavras, tudo o que “antes” era objeto de horas (ou dias) de pesquisas, elaboração de documentos, preenchimento de guias e de formulários, envios e protocolos de documentos, análises de informações (bem como de legislação, doutrina, jurisprudência/precedentes) passou a ser “automatizável”, e essa mudança impacta em muito a profissão.

Reiteramos, portanto, que nem a profissão nem a atividade do advogado desaparecerão, assim como as dos demais operadores do direito, mas serão cada vez mais estratégicas, e terão cada vez mais valor para os clientes e para a sociedade em geral. Ou seja, tiveram e terão que se adaptar.

O avanço das chamadas tecnologias e da IA vem promovendo grande e profunda reformulação nas atividades e nas tarefas jurídicas, impactando os cursos de direito, os “estágios” (que terão que ser totalmente “repensados e atualizados”), as carreiras, a organização dos escritórios de advocacia e dos departamentos jurídicos, pois (em linhas gerais) o que for mais simples e básico, replicável e automatizável, e o que estiver acessível aos “softwares/sistemas/tecnologias” deixou de fazer sentido para os humanos.

A profunda reformulação acima “resumida” não será simples e nem fácil, mas está em curso (e a passos ultrarrápidos) – e todos estão precisando repensar e reorganizar suas atividades, do aluno ao professor do curso de direito, do estagiário ao sócio nos escritórios, e mesmo do cliente ao advogado (interno ou externo), assim como nas demais carreiras jurídicas (em si e em sua interface e relação com as demais).

No caso dos escritórios de advocacia, as transformações são inúmeras e tem demandado extremo cuidado e atenção dos sócios que precisam ajustar das carreiras internas aos modelos de negócios, do perfil e experiência ao papel dos sócios, assim como de suas equipes, funções e atividades, sem contar nos investimentos em tecnologia e treinamento, e ainda a imprescindível renegociação da forma e dos valores de faturamento pelos serviços prestados.

E se o que é mais “simples/básico/replicável/automatizável”, como mencionado, deixou de ser realizado por humanos, é natural que aos advogados mais especializados, experientes e estratégico siga ocupando a parte central de seu trabalho o que for efetivamente mais sensível, estratégico e de maior responsabilidade e impacto – para o cliente e para a sociedade. Em certa medida, para essa “faixa” da advocacia, solidifica-se uma oportunidade de enorme importância e de ganho para todos, pois os profissionais justamente mais experientes e estratégicos serão chamados a atuar no que for fundamental e “indelegável” (inclusive e especialmente pela responsabilidade envolvida).

Com a alocação aos Estrategistas Jurídicos (em todas as carreiras jurídicas) do que seja efetivamente estratégico, sua responsabilidade e importância da atuação aumentam muito, bem como a valorização do seu trabalho; o que por sua vez demanda uma nova percepção por parte do cidadão, do cliente e da sociedade.

Nesse sentido o “meros operadores do direito” deixam de fazer sentido, e a “mera operação” foi automatizada, e passamos a denominar os que forem mais estratégicos de justamente Estrategistas Jurídicos.

Lembremo-nos que o que foi e será cada vez mais automatizável são “apenas” as tarefas (em especial as mais simples e rotineiras), e não as questões mais profundas, e menos ainda os pontos estratégicos e mais responsabilidade. No caso dos sócios de escritórios de advocacia que por vezes são na prática advogados seniores, sem atuação de fato estratégica, o ajuste terá que ser profundo!

Sustentamos, assim, que todos os operadores estão sendo impactados e “reformulados”, bem como suas atividades desenhadas, demandando profunda revisão dos cursos de direito e dos estágios, pois as atividades mais “juniores” já são bem distintas do que os atuais “seniores” estavam acostumados a delegar, seja na advocacia, na promotoria, na magistratura ou nas demais carreiras e atividades jurídicas.

Uma das vantagens “da nossa era” nesse tema é que estamos todos sendo impactados, por novidades que surgem e se reformulam todos os dias, num cenário de aprendizado geral, o que funciona tanto como ameaça quanto como oportunidade, cabendo a cada um escolher (e se tiver competência) aproveitar a forma como enfrentará esse contexto. E, no caso da advocacia, caberá aos clientes (indivíduos, investidores e empresas) entender o que e como alocar aos escritórios de advocacia, como escolher os profissionais realmente estratégicos para atuar em cada tema e momento, os prazos e os custos para cada realidade, dentre outros.

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