Do reativo ao estratégico: o roadmap para o jurídico ganhar relevância no negócio

Por muitos anos, o planejamento estratégico foi tratado como algo incompatível com a rotina do jurídico. A justificativa era quase sempre a mesma: o volume imprevisível de demandas, a pressão constante por urgência e a natureza complexa do trabalho jurídico tornariam qualquer plano rapidamente obsoleto.

O resultado desse raciocínio é conhecido: departamentos jurídicos operando em modo permanente de “apagar incêndios”, a dificuldade para demonstrar valor, priorizar iniciativas e se posicionar como parceiros estratégicos do negócio.

Mas existe um caminho prático e realista para romper esse ciclo. Não se trata de criar um documento muito sofisticado, e sim de adotar um método estruturado, que permita ao jurídico sair do ponto A (reatividade) e avançar para o ponto B (clareza, foco e impacto).

A seguir, apresento um roadmap em 4 etapas, já utilizado por departamentos maduros, que funciona justamente porque respeita a realidade operacional do jurídico.

Etapa 1 l Estado atual: entender a realidade antes de tentar mudá-la

Todo planejamento eficaz começa com um diagnóstico honesto. E, no jurídico, isso significa coletar informações de múltiplas fontes, sem depender apenas de percepções individuais.

Comece pelo time

Antes de ouvir o negócio, é fundamental ouvir quem vive o dia a dia da operação jurídica.

Uma abordagem simples e eficaz é aplicar um survey anônimo com três perguntas-chave:

  • O que fazemos bem como departamento jurídico?
  • O que nossos clientes internos esperam de nós?
  • Onde eles gostariam de ver melhorias?

Além disso, conversas 1:1 ajudam a aprofundar pontos que dificilmente aparecem em questionários, como:

  • Onde o tempo do time é efetivamente consumido;
  • Principais frustrações operacionais;
  • Exemplos recentes de sucesso e insumos para a construção de uma narrativa de maior valor.

Esse movimento inicial gera engajamento e sinaliza algo essencial: o planejamento não é imposto, ele é construído de forma colaborativa.

Traga os dados possíveis (não os perfeitos)

Planejar sem dados é navegar no escuro, mas esperar dados perfeitos costuma paralisar a ação. O foco deve ser no essencialmente suficiente para decidir, como:

  • Investimento interno vs. externo;
  • Headcount (FTE);
  • Volume, tipo e complexidade das demandas;
  • Número de escritórios parceiros;
  • Horas ou tempo de cada ciclo.

Uma dica prática: envolva desde cedo as áreas parceiras e os próprios escritórios externos. Muitas informações já existem, apenas não estão centralizadas no jurídico.

Use benchmarks e olhe para fora

Benchmarks ajudam a calibrar expectativas e embasar decisões. Muitas fontes oferecem dados relevantes sobre estrutura, custos e maturidade do jurídico.

Além disso, o diagnóstico precisa considerar fatores externos:

  • Mudanças regulatórias;
  • Cenário macroeconômico;
  • Riscos geopolíticos;
  • Tendências setoriais.

Briefings periódicos com escritórios parceiros e outros agentes externos enriquecem de forma significativa essa visão.

Etapa 2 l Mude de lado: escutar o negócio para virar parceiro estratégico

Essa é, sem exagero, a etapa mais crítica de todo o processo.

Alinhamento estratégico não nasce de relatórios, mas de conversas qualificadas. Por isso, priorize encontros 1:1 com líderes de diversas áreas que interagem com o jurídico, indo além de pesquisas genéricas.

Algumas perguntas orientadoras:

  • Quais são suas prioridades para os próximos 3, 6 e 12 meses?
  • Quais impedimentos você enxerga para atingir essas metas?
  • Como o jurídico pode apoiar (ou hoje acaba dificultando) esses objetivos?

É importante reforçar: isso não é uma conversa anual. Prioridades mudam, projetos surgem e riscos se transformam. Alinhamentos recorrentes fortalecem a relação e permitem que o jurídico atue de forma mais preventiva.

Esse também é o momento de coletar feedback de serviço:

  • O que o negócio considera mais valioso na atuação do jurídico?
  • O que gera mais atrito ou demora?
  • Onde o jurídico realmente agrega valor?

Essas respostas costumam revelar oportunidades claras de melhoria operacional e reposicionamento estratégico.

Etapa 3 l Dados + SWOT: transformar informação em direção

Após ouvir o time, o negócio, os dados e o ambiente externo, surge o desafio da síntese. Aqui, menos é mais.

Uma ferramenta extremamente eficaz é consolidar tudo em um SWOT claro e organizado em grandes temas:

  • Strengths & Opportunities: onde o jurídico já gera vantagem competitiva ou pode ampliar seu impacto;
  • Weaknesses & Threats: onde precisa proteger, corrigir ou priorizar esforços.

Um ponto frequentemente subestimado, mas decisivo, merece destaque: moral e engajamento do time. Departamentos jurídicos de alta performance têm, em comum, equipes que confiam umas nas outras, colaboram e entendem seu papel no todo. Isso não é “soft”, é um ativo estratégico.

Etapa 4 l Estado futuro e prioridades: decidir o que fazer (e o que não fazer)

Com o diagnóstico e a síntese em mãos, chega o momento de olhar para frente.

Aqui, o jurídico deve responder a duas perguntas fundamentais:

  1. Qual é o nosso papel como função? (visão, missão, valor entregue ao negócio)
  2. O que não faremos mais? Muitas áreas jurídicas se sobrecarregam assumindo tarefas que pertencem a outras áreas, simplesmente porque “sabem fazer bem”.

Para tirar o plano do papel, é importante realizar um offsite ou sessões estruturadas, com dois objetivos claros:

  • Primeiro, decidir o que priorizar;
  • Depois, definir como executar.

Offsites produtivos têm algumas características em comum: agenda definida, pouca leitura prévia, foco em decisão e direcionamento. Não são encontros sociais, são momentos de alinhamento estratégico.

Planejar é uma decisão de liderança

O roadmap não elimina a imprevisibilidade do jurídico. Mas ele cria algo ainda valioso: clareza.

Clareza sobre prioridades, sobre o papel do departamento, sobre onde investir energia e, principalmente, sobre como o jurídico contribui para os objetivos reais do negócio.

Em um cenário de pressão por eficiência, previsibilidade e valor percebido, planejar deixou de ser opcional. Tornou-se uma das decisões mais estratégicas que a liderança jurídica pode tomar.

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