Liderar para Durar — Sustentabilidade como Escolha Estratégica

Flávia Marcilio Barbosa — Coluna SER.A.CEO | FenalawLab | Junho 2026

A agenda ESG não avança sozinha. Ela avança quando alguém decide liderá-la.

O Dia Mundial do Meio Ambiente, instituído pela ONU em 1972 e celebrado todo dia 5 de junho, nasceu como chamado à consciência ambiental. Seu significado, porém, se expandiu: falar em meio ambiente hoje é reconhecer que clima, biodiversidade, saúde, desigualdade e governança formam um sistema interligado. Por tal razão, nenhuma agenda de sustentabilidade, no ambiente corporativo, sobrevive isolada de uma visão mais ampla sobre como as organizações se estruturam, decidem e lideram. É a partir dessa expansão conceitual que esta coluna de junho reflete sobre como líderes engajados podem ser vetores concretos de sustentabilidade ambiental e social — inclusive nos escritórios de advocacia.

Liderança, Sustentabilidade e Governança

Em pesquisa conduzida em parceria com o Pacto Global da ONU, a Russell Reynolds Associates identificou os atributos centrais da liderança sustentável: visão integrada dos impactos organizacionais, setoriais e socioambientais das decisões; inclusão de stakeholders; inovação disruptiva; e visão de longo prazo. O estudo “Divisões e Dividendos” (Russell Reynolds, 2023), com mais de 3.800 executivos sêniores em 104 países, revelou que 76% afirmam que seu CEO está comprometido com a sustentabilidade, mas apenas metade acredita que ele de fato impulsiona as mudanças necessárias. Apenas 32% dos líderes têm metas ESG vinculadas à sua avaliação de desempenho, e apenas 23% as mensuram por parâmetros claros.

O dado estruturante é que as organizações em que o diretor de Sustentabilidade reporta diretamente ao CEO apresentam resultados ESG 50% mais ágeis e consistentes — e apenas 20% das empresas no mundo adotam esse modelo (Russell Reynolds, The Voice of the Chief Sustainability Officer, 2022). Proximidade entre liderança máxima e agenda sustentável não é detalhe de organograma, deve ser uma escolha prioritária.

Essa compreensão já foi incorporada ao referencial normativo brasileiro. O Código de Melhores Práticas do IBGC, em sua 6ª edição (2023), elevou a sustentabilidade a um dos cinco princípios da governança corporativa, ao lado de integridade, transparência, equidade e responsabilização. O princípio da integridade, novidade da edição, impõe coerência entre o discurso da organização e suas ações concretas — exatamente o atributo que distingue a liderança sustentável real da retórica.

A dimensão feminina da liderança sustentável

O estudo “Agenda ESG, Substantivo Feminino” (Cardoso, FGV-EAESP, 2021), analisou a correlação entre liderança feminina e agenda ESG em 98 empresas brasileiras de capital aberto, e demonstrou que organizações com ao menos uma mulher na alta liderança apresentam desempenho ESG superior nos pilares ambiental e social — com diferença de 14 pontos percentuais no recorte ambiental e 11 no social em relação às empresas sem representação feminina nos cargos de decisão. A pesquisa da Egis Group (2021) reforça essa conclusão, em uma década, a participação feminina em funções de liderança em sustentabilidade cresceu 20%, e em 2020 mulheres já ocupavam 55% das diretorias de sustentabilidade nas organizações analisadas.

Não é coincidência. O Código IBGC reconhece que a diversidade é indutora de inovação e sustentabilidade. No mercado jurídico brasileiro, ainda marcado pela sub-representação feminina nos cargos de comando, abrir espaço real para mulheres na alta liderança é relevante.

Da intenção à prática – como líderes engajados fazem de diferente

A Russell Reynolds aponta que organizações que avançam na agenda ESG vinculam metas de sustentabilidade à remuneração e à avaliação de desempenho dos líderes; integram a pauta ESG ao planejamento estratégico central, em vez de delegar às áreas de comunicação ou compliance; e investem na formação de lideranças com experiência prática em sustentabilidade antes de assumir posições de comando. O Código IBGC determina, ainda, que os conselhos supervisionem os dados de sustentabilidade com o mesmo rigor aplicado às informações financeiras.

Para os escritórios de advocacia, essas premissas se traduzem em escolhas concretas, tais como: políticas internas de diversidade com metas mensuráveis, relatórios de sustentabilidade (com dupla materialidade), critérios ESG na seleção de fornecedores e parceiros, e — sobretudo — lideranças que assumam essa agenda como prioridade estratégica, não como posicionamento de marca. Liderar de forma sustentável implica programas com métricas e verificação auditável, não apenas declaração de intenções.

Referências

CARDOSO, Monique de Oliveira. Agenda ESG, Substantivo Feminino: a relação entre presença de mulheres na alta liderança e sustentabilidade nas empresas. 2021. Dissertação (Mestrado em Gestão para a Competitividade) — EAESP, Fundação Getulio Vargas, São Paulo, 2021.

EGIS GROUP. Mulheres nas organizações: avanços em ESG e sustentabilidade. 2021. Disponível em: https://www.egis-group.com/pt/todos-os-insights/mulheres-nas-organizacoes-avancosem-esg-e-sustentabilidade. Acesso em: 25 jun. 2026.

IBGC — INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA. Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. 6. ed. São Paulo: IBGC, 2023.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Resolução 2994 (XXVII): Dia Mundial do Meio Ambiente. Assembleia Geral das Nações Unidas, 15 dez. 1972.

RUSSELL REYNOLDS ASSOCIATES. The Voice of the Chief Sustainability Officer. Nova York: Russell Reynolds Associates, 2022. Disponível em: https://www.russellreynolds.com/en/insights/articles/the-voice-of-the-chief-sustainability-officer. Acesso em: 25 jun. 2026.

RUSSELL REYNOLDS ASSOCIATES. Divides and Dividends: closing the gap between sustainability ambition and action. Nova York: Russell Reynolds Associates, 2023. Disponível em: https://www.russellreynolds.com/en/insights/divides-and-dividends. Acesso em: 25 jun. 2026.

Flávia Marcilio Barbosa é advogada, sócia do KLA Advogados, com atuação nas áreas ambiental, imobiliária e ESG. Integra o coletivo SER.A.CEO e é reconhecida por rankings como Chambers, Leaders League e Best Lawyers.

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