Da automação à autonomia: como agentes de IA estão transformando a operação jurídica

A transformação digital no ecossistema jurídico atravessa um momento divisor de águas. Se nos últimos anos o debate sobre Inteligência Artificial esteve centrado no uso de ferramentas para pesquisa doutrinária, busca jurisprudencial ou revisão pontual de contratos, o cenário atual aponta para uma evolução muito mais profunda: a transição da simples automação de tarefas para a implementação de agentes autônomos de IA.

Para entender como essa transição funciona na prática, quais tarefas já podem ser delegadas com segurança e como mitigar riscos éticos e jurídicos, conversamos com Christian Klug, Gerente de Produto e Mercado Jurídico na Benner. Na entrevista a seguir, ele detalha os impactos dos agentes de IA e ressalta o papel insubstituível do julgamento humano na estratégia jurídica.

1. Muita gente ainda associa IA jurídica a ferramentas de busca ou revisão de documentos. O que muda estruturalmente quando entram os agentes autônomos nesse fluxo?

Os melhores casos para agentes de IA são tarefas estruturadas e repetitivas, como triagem de documentos, extração de informações, identificação de prazos, organização de demandas e elaboração de minutas padronizadas.

Nessas situações, o agente consegue executar o fluxo completo e registrar as ações sem intervenção constante.

Já atividades que envolvem estratégia jurídica, interpretação complexa e decisões de alto risco devem continuar sob responsabilidade humana, com a IA atuando apenas como apoio.

Em resumo, a IA assume o trabalho operacional e repetitivo, enquanto o profissional foca no julgamento e na estratégia.

Cabe ressaltar que através de nossa plataforma de IA o Atelier, é possível configurar quais fluxos passam por aprovação humana e quais podem ser autônomos.

2. Quais tarefas da operação jurídica hoje já são boas candidatas para serem entregues a um agente de IA sem supervisão constante — e quais ainda exigem o humano no controle?

Os melhores candidatos são tarefas repetitivas, estruturadas e baseadas em regras claras, como triagem e classificação de documentos, análise de intimações, identificação de prazos, busca de subsídios, elaboração de minutas e respostas padronizadas.

Já atividades que envolvem estratégia jurídica, interpretação complexa, negociação, riscos relevantes ou responsabilidade profissional ainda exigem o controle humano.

A ideia não é substituir o advogado, mas permitir que o agente assuma o trabalho operacional e de grande volume, deixando o profissional focado em decisões, estratégia e atividades de maior valor.

Nossa plataforma conta com agentes que vão deste a automação de tarefas repetitivas como cadastro, validações, pagamentos até tarefas mais estrategicas como elaboração de documentos, agentes com base de conhecimento.

3. Quais são os principais riscos — jurídicos, éticos ou reputacionais — de dar autonomia a um agente de IA em decisões que hoje são exclusivamente humanas?

Os principais riscos estão em decisões incorretas, falta de contexto, vieses, segurança das informações e impactos jurídicos ou reputacionais decorrentes de uma decisão inadequada.

Por isso, autonomia não significa deixar a IA decidir tudo sozinha. É necessário definir limites claros sobre o que o agente pode analisar, executar ou aprovar, mantendo o humano no controle das decisões de maior impacto.

Nossa plataforma de agentes foi concebida justamente para isso, garantindo governança, validações, aprovações e rastreamento das ações, com regras que definem previamente o que o agente pode ou não aprovar.

4. Como as áreas jurídicas devem pensar em governança e auditoria quando o “autor” de uma ação (um e-mail, uma minuta, uma resposta a cliente) pode ter sido um agente, não uma pessoa?

A governança precisa garantir transparência, rastreabilidade e responsabilidade sobre tudo o que o agente executa. É importante saber qual agente realizou a ação, com quais informações, regras e modelos, além de registrar aprovações e intervenções humanas.

Nossa plataforma de agentes trata essas questões por meio de governança, controle de permissões, validações, aprovações e rastreamento das execuções, permitindo identificar o que foi feito pelo agente e dentro de quais regras.

5. A regulação brasileira (e a discussão global sobre IA) já dá conta desse cenário de agentes autônomos, ou o mercado está operando à frente da lei?

A regulação ainda está evoluindo para acompanhar a velocidade de desenvolvimento da IA, especialmente em cenários de agentes autônomos e sistemas que executam ações. O mercado, em muitos casos, está avançando mais rápido que a legislação.

Por isso, além de acompanhar as normas, as empresas precisam adotar boas práticas de governança, segurança, rastreabilidade e supervisão humana. Nesse cenário, plataformas estruturadas para controlar e auditar o comportamento dos agentes se tornam fundamentais para uma adoção segura e responsável da IA.

A chegada dos agentes de IA à rotina jurídica sinaliza um caminho sem volta para a eficiência do setor, mas exige maturidade na implementação. Como destacou Christian Klug, a tecnologia não surge para anular a inteligência humana, mas para libertar os advogados das amarras do trabalho braçal e repetitivo. O grande diferencial das organizações bem-sucedidas nessa jornada não será apenas a adoção da ferramenta mais veloz, mas sim a capacidade de estabelecer regras claras de governança, auditoria e rastreabilidade — garantindo uma transição para a autonomia digital que seja tão eficiente quanto ética e segura.

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