A Reforma Tributária brasileira entrou em sua fase mais decisiva: a regulamentação. Depois de anos de debate, o país agora enfrenta o desafio prático de migrar de um sistema tributário fragmentado, com décadas de complexidade acumulada, para um modelo unificado baseado no IVA dual. Esse período de transição, que se estenderá por vários anos, traz consigo tanto oportunidades quanto incertezas e coloca empresários, gestores jurídicos e executivos diante da necessidade de repensar processos de compliance, planejamento fiscal e gestão de créditos tributários.
Para entender como as empresas devem se preparar para essa nova realidade, conversamos com José Carlos Braga Monteiro, CEO do Grupo Studio. Com uma visão privilegiada do ambiente corporativo brasileiro, Monteiro analisa os principais pontos de atenção durante a transição, os setores que devem sentir maior impacto na carga tributária, o papel da tecnologia e da inteligência artificial na recuperação de créditos e o que lidera com sucesso significa no cenário pós-Reforma. Confira a entrevista completa a seguir.
1. Com a regulamentação da Reforma Tributária em andamento, quais são as maiores incertezas que os empresários ainda enfrentam durante este período de transição entre modelos?
Hoje, as maiores incertezas giram em torno de alguns pontos bem concretos. O primeiro é a carga efetiva… mesmo com CBS e IBS já desenhados, cada setor ainda está tentando entender qual vai ser o peso real depois de considerar créditos, cashback, regimes específicos e diferenciados. Isso mexe direto com preço e margem.
O segundo ponto é o Split Payment… porque muda o momento em que o dinheiro sai do caixa da empresa. E isso pode apertar capital de giro de quem hoje trabalha com prazo largo de recebimento.
Terceiro… os créditos. A lógica da não-cumulatividade ampla é boa no papel, mas ainda existem dúvidas práticas sobre o que vai ser aceito, como vai ser operacionalizado e como o Fisco vai validar isso na prática.
Tem também a questão contratual… contratos longos, principalmente em construção civil, agro e locação, precisam ser revistos porque foram assinados numa lógica tributária que vai deixar de existir.
E, por fim, a parte de sistemas… ERP, parametrização, NCM, CFOP, tudo isso precisa ser adaptado, e muita empresa ainda nem começou.
2. A transição gradual dos tributos se estenderá por vários anos. Qual deve ser a prioridade operacional das empresas hoje para evitar a perda de competitividade e custos duplicados no compliance fiscal?
Muitas empresas estão olhando 2033 como se fosse longe, e na prática o custo começa já em 2026, quando os dois sistemas passam a conviver.
A prioridade número um, hoje, é o diagnóstico… entender como sua empresa está posicionada no modelo atual antes de projetar o novo. Sem essa linha de base, qualquer simulação vira chute.
Depois vem a simulação da carga efetiva no novo modelo… considerando CBS, IBS, créditos, cadeia de fornecedores e Split Payment. É isso que mostra se a sua margem aperta, se o preço precisa ser recalculado ou se o caixa vai sofrer.
O terceiro ponto é tecnologia e parametrização… porque o custo duplicado de compliance que você mencionou nasce exatamente aí. Empresa que não ajustar ERP, cadastros, NCM, CFOP, CST e integrações vai pagar imposto errado nos dois sistemas ao mesmo tempo… e isso é caro.
Quarto ponto, revisão de contratos e cadeia de fornecedores… porque o fornecedor mais barato hoje pode virar o mais caro amanhã, dependendo do crédito que ele te gera.
E, por fim, capacitação do time fiscal e da liderança… porque decisão estratégica em ambiente de transição exige gente que entenda os dois mundos ao mesmo tempo.
No fundo, a prioridade é transformar a Reforma em um roadmap de execução ano a ano, e não em um projeto único lá no fim.
3. O Grupo Studio acompanha de perto o ambiente corporativo brasileiro. Quais setores da economia tendem a sofrer o maior impacto negativo na carga tributária final e quais devem se beneficiar mais?
Aqui vale um cuidado, porque a resposta definitiva depende da regulamentação final e do perfil de cada empresa dentro do setor. Mas dá para desenhar tendências bem claras.
Do lado dos setores que tendem a sentir mais pressão, o primeiro é serviços… principalmente serviços intelectuais, como advocacia, consultoria, tecnologia, medicina, engenharia. Hoje muitos operam no Simples ou no Lucro Presumido com carga baixa de PIS e Cofins, e usam pouco crédito. Com CBS e IBS numa alíquota cheia, sem muito insumo para creditar, a carga efetiva pode subir.
Setor financeiro, planos de saúde e educação também entram nesse grupo de atenção… mesmo com regimes específicos previstos, o desenho ainda gera dúvida sobre o impacto real.
Construção civil e setor imobiliário também merecem cuidado… porque contratos são longos, o ciclo é lento e a transição pega obra no meio do caminho.
Do lado dos que tendem a se beneficiar, a indústria aparece na frente… porque hoje ela carrega uma cumulatividade escondida, ICMS complexo, guerra fiscal, substituição tributária. Com a não-cumulatividade ampla, o crédito flui melhor e o custo tributário tende a ficar mais racional.
Agronegócio, exportadores e cadeias longas de produção também tendem a ganhar… porque o novo modelo desonera exportação de forma mais limpa e destrava crédito ao longo da cadeia.
Varejo e logística ficam num meio-termo… podem ganhar em simplificação e crédito, mas sofrem no Split Payment e no capital de giro.
Agora, um recado importante… dentro do mesmo setor, duas empresas podem ter resultados opostos, dependendo de fornecedor, margem, regime atual e estrutura de cadeia. Por isso a simulação individual é o que realmente dá segurança.
4. Com a unificação dos tributos e a promessa de maior transparência, qual será o papel da tecnologia e da inteligência artificial na rotina do planejamento e da recuperação de créditos tributários?
Essa é uma das transformações mais silenciosas da Reforma… mas talvez a mais profunda na prática.
Com a unificação em CBS e IBS, o sistema fica mais transparente, sim… mas também fica mais rastreável. Cada operação vai gerar um registro digital padronizado, e o Fisco vai enxergar a cadeia inteira em tempo quase real. Isso muda o jogo.
O papel da tecnologia, nesse cenário, deixa de ser só apuração e vira inteligência de decisão. Eu explico… hoje o ERP é usado basicamente para calcular imposto e emitir documento. No novo modelo, ele precisa validar crédito, checar fornecedor, conferir parametrização, acompanhar Split Payment e sinalizar risco antes de a nota sair. Se isso falhar, a empresa paga imposto errado ou perde crédito legítimo.
A inteligência artificial entra em três frentes bem concretas. A primeira é monitoramento contínuo… identificar desvios, inconsistências e oportunidades mês a mês, sem depender de auditoria pontual. Isso é o que a gente chama de Tax Scanner, dentro do ecossistema.
A segunda é apuração assistida… a IA ajuda a validar bases, alíquotas, créditos e documentos antes da transmissão ao Fisco. Reduz erro, reduz autuação e reduz retrabalho.
A terceira é recuperação de créditos… tanto no modelo antigo, revisando os últimos cinco anos, quanto no novo, garantindo que nenhum crédito legítimo seja perdido no meio da transição. É aí que entra a lógica do FINTAX… buscar caixa no passado para fortalecer a empresa diante do impacto financeiro do futuro.
E tem um ponto estratégico… a IA também vira ferramenta de simulação. Dá para testar cenários de preço, fornecedor, margem e estrutura societária em minutos, coisa que antes levava semanas de consultoria.
Resumindo… tecnologia deixa de ser suporte e vira o próprio centro da estratégia tributária. Quem não se estruturar nisso vai operar no escuro num sistema que exige clareza total.
5. Para finalizar, qual mensagem ou conselho principal você deixaria para os advogados, gestores jurídicos e executivos que precisam liderar suas empresas no pós-Reforma?
Se eu pudesse deixar uma única mensagem, seria essa… a Reforma Tributária não é um evento fiscal, é um evento empresarial. Quem tratar isso como projeto do departamento tributário vai perder tempo, dinheiro e competitividade.
O novo sistema muda preço, margem, caixa, contrato, fornecedor, sistema e até estrutura societária. Ou seja… mexe com a economia inteira da empresa. Então o papel do advogado, do gestor jurídico e do executivo é sair da posição técnica e assumir posição estratégica. Traduzir a norma em decisão de negócio.
O segundo conselho é… não espere a regulamentação estar 100% pronta para começar. Muita coisa já está definida, e as empresas que estão largando na frente são justamente as que começaram a diagnosticar, simular e ajustar antes da poeira baixar. Quem esperar 2032 para agir vai chegar tarde.
O terceiro ponto é sobre pessoas… nenhuma empresa atravessa uma transição dessa magnitude sem um time preparado. Capacitação contínua deixou de ser diferencial e virou requisito. O profissional que dominar o novo modelo vai ser disputado no mercado nos próximos anos.
E o quarto, talvez o mais importante… cerque-se de quem já está imerso no tema todos os dias. Reforma Tributária não se aprende lendo notícia solta. Se aprende com método, com prática e com quem vive isso na aplicação real das empresas.
E é exatamente esse o propósito da GS Educação… transformar o conhecimento em aplicação prática. As imersões, como a do Novo Tributário, a de Construção Civil, a do Agro, a de Supermercados, Logística, Mercado Financeiro e Patrimônio Médico, foram desenhadas justamente para isso… preparar quem precisa liderar essa transição dentro das empresas e dos escritórios.
Fecho com uma provocação… no novo sistema, não vai vencer quem sabe mais teoria. Vai vencer quem age mais rápido, com mais clareza e com mais método.
A entrevista com José Carlos Braga Monteiro reforça um ponto central: a Reforma Tributária não deve ser tratada como um evento pontual, mas como um processo contínuo de decisão empresarial, que já começa a produzir efeito em 2026. Entre a revisão de contratos, a adaptação de sistemas, a simulação de cenários com apoio de inteligência artificial e a capacitação constante dos times, o recado do CEO do Grupo Studio é direto: nesse novo modelo tributário, competitividade vai pertencer a quem agir com método antes que a regulamentação esteja totalmente fechada.


